Situada às margens da antiga Estrada Real, caminho que conduzia à Cidade de Goiás, então capital da Província de Goiás, Inhumas teve sua origem no povoado conhecido como Goiabeira. O local servia como ponto de descanso para tropeiros e recebeu essa denominação em razão da grande quantidade de goiabeiras existente na região. Com o passar do tempo, o núcleo inicial se desenvolveu e passou a integrar uma importante área de criação de gado.
Naquele período, grande parte das terras do interior de Goiás era considerada devoluta e ocupada sem um rigoroso processo de regularização. Nesse contexto, desenvolveram-se principalmente duas formas de ocupação e trabalho da terra: a do agregado e a do posseiro.
Poucos posseiros solicitavam formalmente ao governo as concessões de terras ou sesmarias. Em Goiabeira, posteriormente Inhumas, essa situação estava relacionada às exigências impostas aos requerentes. Após receber a concessão, o ocupante deveria tornar a área produtiva no prazo de dois anos, sob pena de perder o direito sobre a propriedade. Como muitos não tinham condições de cumprir essa exigência, acabavam permanecendo sem a escritura de suas posses, situação que posteriormente contribuiu para conflitos relacionados à propriedade e à demarcação das terras.
A ausência de registros referentes à antiga Fazenda Cedro pode estar relacionada aos conflitos pela posse da terra ou à dificuldade de seus proprietários em cumprir as exigências de produtividade. Os documentos oficiais, contudo, apontam a Fazenda Goiabeira, de Félix Rodrigues, como uma das principais referências documentais para a origem do município.
A origem de Goiabeira
Em 20 de setembro de 1858, Félix Rodrigues adquiriu parte da Fazenda Cedro e registrou a propriedade com a denominação de Goiabeira. As terras foram adquiridas pelo valor de 40$000 (quarenta mil-réis) e compreendiam uma légua de comprimento por uma légua de largura.
A propriedade estava localizada às margens da chamada Estrada Nova, caminho que conduzia à então Província de Goiás. Seus limites eram definidos pelas terras ocupadas por João Ramos, ao nascente; José da Barra, ao poente; pelo Córrego Cemitério, ao sul; e por terras devolutas, ao norte.
Criação do Distrito de Goiabeira
O povoado de Goiabeira foi elevado à condição de distrito em 27 de março de 1896, por meio da Lei Municipal nº 04. Na época, o município de Curralinho — atual Itaberaí — era responsável pela administração da localidade.
O então intendente de Curralinho, Cel. Antônio Primo de Faria, nomeou como subintendente do povoado de Goiabeira o Sr. Virgíneo Pereira Cunha.
Anos mais tarde, em 2 de dezembro de 1908, o presidente do Conselho Municipal, João Elias Caldas, promulgou a Lei nº 40, alterando a denominação de Goiabeira para Inhumas.
A mudança de nome foi motivada pela presença da ave conhecida como inhuma ou anhuma, encontrada em abundância na região.
A ave Inhuma
A inhuma, também conhecida como anhuma, é uma ave de porte elegante e coloração predominantemente escura, característica das regiões próximas a brejos e áreas alagadiças. Seu canto gutural e marcante era facilmente ouvido pelos moradores e viajantes que chegavam à região.
A presença dessa ave tornou-se tão característica da localidade que seu nome passou a identificar definitivamente o município. A denominação Inhumas também foi associada à intenção de preservar na memória coletiva uma das particularidades naturais que marcavam a região.
Ao se aproximar da cidade, segundo relatos históricos, era comum ouvir o canto característico da ave, despertando a curiosidade dos viajantes, que procuravam localizá-la entre as árvores.
Entre distrito e município
A trajetória administrativa de Inhumas foi marcada por períodos de avanços e retrocessos. Após a criação do distrito, a localidade passou por uma breve suspensão de sua condição administrativa em razão de disputas políticas locais.
Com a morte de Vicente Bueno Fernandes, político de destaque na região, seus adversários conseguiram a suspensão do Distrito de Inhumas do Município de Itaberaí, por meio da Lei Municipal nº 50, de 11 de dezembro de 1909. Com isso, Inhumas voltou à condição de simples povoado.
A condição de distrito seria restaurada posteriormente. Em 23 de novembro de 1912, o Conselheiro Francisco de Paula Mendonça apresentou projeto de lei para a restauração do distrito. A medida foi aprovada e sancionada em 9 de janeiro de 1913 pelo intendente de Itaberaí, Cel. Antônio Gardêncio Garcia, restabelecendo definitivamente a condição distrital de Inhumas.
Em 27 de janeiro de 1930, por meio do Decreto nº 31, Inhumas foi elevada à categoria de vila. O processo havia sido iniciado anos antes, em 1926, com a mobilização de lideranças locais, entre elas Sizelísio Simões de Lima, Elpídio Luiz Brandão, Sebastião Almeida Guerra, José de Freitas Borges e Cesário Silva.
O momento era de profundas transformações políticas no Brasil, marcado pela Revolução de 1930.
Emancipação política
O processo de emancipação de Inhumas avançou rapidamente. Em 19 de janeiro de 1931, o então interventor federal em Goiás, Pedro Ludovico Teixeira, assinou o Decreto Estadual nº 602, elevando Inhumas à categoria de município, desmembrando-o de Itaberaí.
A instalação do município ocorreu em 19 de março de 1931. Em março daquele ano, foi nomeado como primeiro prefeito municipal o então Cel. José Rodrigues Rabelo.
A partir da emancipação, Inhumas deixou de ser administrada exclusivamente por representantes nomeados pelo município de Itaberaí e passou a ter administração municipal própria. Inicialmente, os prefeitos eram nomeados pelo governo estadual; posteriormente, passaram a ser escolhidos diretamente pela população.
A chegada dos imigrantes e o desenvolvimento econômico
A década de 1930 marcou um período de grande transformação econômica e social para Inhumas. O município ganhou destaque regional e passou a ser conhecido como “Princesinha do Cerrado”, impulsionado pela fertilidade de suas terras, pela expansão da agricultura e pela chegada de diferentes grupos de imigrantes.
A região possuía extensas áreas de terra roxa e reservas de mata consideradas propícias ao cultivo agrícola, especialmente do café, produto de grande valorização naquele período.
A expansão da ferrovia até Anápolis e a proximidade com Goiânia também contribuíram para ampliar as possibilidades de circulação de pessoas e mercadorias, fortalecendo o desenvolvimento econômico do município.
A chamada Marcha para o Oeste, política de ocupação e integração do interior brasileiro impulsionada a partir da década de 1930, contribuiu para intensificar o interesse pelas terras de Inhumas.
Nesse período, o município recebeu imigrantes e famílias de diferentes origens, entre elas sírio-libaneses, espanhóis, italianos, japoneses e portugueses, que contribuíram significativamente para a formação econômica, social e cultural da cidade.
A contribuição dos imigrantes
Sírio-libaneses
Os imigrantes sírio-libaneses tiveram papel importante na formação do comércio local. Famílias como Asmar, Sahium, Raiza, Chalub, Mahmud, Gebrim, Charter, Sebba e Nacruht, entre outras, participaram diretamente da expansão comercial de Inhumas.
Muitos desses comerciantes se estabeleceram na Rua Goiás, principal via comercial da época, onde construíram os primeiros sobrados e estabelecimentos comerciais, alguns conhecidos como bungalows.
A expansão do comércio contribuiu para transformar a paisagem urbana e consolidar a Rua Goiás como importante centro de circulação econômica e social do município.
A colônia japonesa
A comunidade japonesa também desempenhou importante papel no desenvolvimento de Inhumas, especialmente na horticultura.
Famílias como Watanabe e Momonuke dedicaram-se ao cultivo de hortaliças, contribuindo para diversificar a produção agrícola e influenciar os hábitos alimentares da população local.
A produção de alimentos e as técnicas agrícolas utilizadas pelos imigrantes japoneses deixaram importante legado na agricultura do município.
Os italianos
Embora em menor número, os imigrantes italianos tiveram participação significativa na formação socioeconômica de Inhumas.
Dedicados principalmente à agricultura, contribuíram para o desbravamento de áreas de mata e para a expansão da produção de café. Muitas famílias se estabeleceram na região conhecida como Serra Abaixo, área cuja topografia, marcada por elevações e morros, lembrava algumas paisagens europeias.
Entre as famílias italianas que se destacaram estão Qualhato, Serravali, Balestra, Quintanilha e Jácomo.
Além da contribuição econômica e agrícola, integrantes dessas famílias participaram da vida social e política do município, ajudando a construir a identidade de Inhumas ao longo das décadas.
Espanhóis e portugueses
A família Vila Verde, de origem espanhola, estabeleceu-se em uma extensa área da região da Serra Abaixo, onde se dedicou ao cultivo do café.
Os portugueses também participaram da expansão da cafeicultura local, com destaque para a família Pires.
A participação conjunta desses diferentes grupos de imigrantes contribuiu para a formação de uma sociedade diversificada, com influências culturais, econômicas e sociais que permanecem presentes na identidade de Inhumas.
A agricultura e o café
A agricultura foi um dos principais pilares da formação econômica de Inhumas. As características do solo e do relevo favoreceram o cultivo do café, que durante décadas esteve entre as principais atividades produtivas do município.
O trabalho dos agricultores e das famílias imigrantes contribuiu para transformar extensas áreas de mata em propriedades produtivas, fortalecendo a economia local e atraindo novos moradores.
O desenvolvimento da cafeicultura também estimulou o comércio, a circulação de mercadorias e a expansão da área urbana, criando as bases para o crescimento que Inhumas experimentaria ao longo do século XX.
Formação Administrativa
- 27 de março de 1896: criado o distrito de Goiabeira, antigo povoado, pela Lei Municipal nº 04, subordinado ao Município de Curralinho.
- 1º de setembro de 1920: no quadro de apuração do Recenseamento Geral, o distrito de Inhumas figurava no Município de Curralinho.
- 5 de agosto de 1924: pela Lei Estadual nº 762, o Município de Curralinho passou a denominar-se Itaberaí.
- 27 de janeiro de 1930: Inhumas foi elevada à categoria de vila pelo Decreto nº 31.
- 19 de janeiro de 1931: pelo Decreto Estadual nº 602, Inhumas foi elevada à categoria de município, desmembrando-se de Itaberaí. A sede foi estabelecida no antigo distrito de Inhumas.
- 19 de março de 1931: ocorreu a instalação do município de Inhumas.
- 1933: em divisão administrativa, o município era constituído pelo distrito-sede.
- 1936 e 1937: Inhumas permaneceu constituída apenas pelo distrito-sede.
- 31 de dezembro de 1943: pelo Decreto-Lei Estadual nº 8.305, foi criado o distrito de Caturaí, antigo povoado de Santo Antônio de Pádua, anexado ao Município de Inhumas.
- 1º de julho de 1950: o município passou a ser constituído por dois distritos: Inhumas e Caturaí.
- 1955: Inhumas permaneceu constituída pelos distritos de Inhumas e Caturaí.
- 14 de novembro de 1958: pela Lei Estadual nº 2.132, o distrito de Caturaí foi desmembrado de Inhumas e elevado à categoria de município.
- 1º de julho de 1960: Inhumas voltou a ser constituída apenas pelo distrito-sede.
- 2007: o município permanecia constituído pelo distrito-sede.
Alteração toponímica
A denominação da localidade passou por diferentes momentos até chegar ao nome atual:
Goiabeira → Goiabeiras → Inhumas
O nome Inhumas foi adotado em razão da presença marcante da ave inhuma ou anhuma na região, tornando-se parte definitiva da identidade histórica e cultural do município.
Inhumas: uma história construída por muitas mãos
A história de Inhumas é marcada pela transformação de um antigo ponto de passagem de tropeiros em um dos importantes municípios da região metropolitana de Goiânia. Das primeiras ocupações de terras e da antiga Fazenda Cedro ao surgimento de Goiabeira; da criação do distrito à emancipação política; da expansão da cafeicultura à contribuição de diferentes comunidades de imigrantes, cada período deixou marcas na construção da cidade.
A identidade inhumense foi formada pela união entre a força do trabalho rural, o crescimento do comércio, a diversidade cultural e a participação de famílias que ajudaram a transformar a antiga Goiabeira em uma cidade dinâmica e reconhecida regionalmente.
Hoje, a história de Inhumas permanece viva em suas tradições, em suas famílias, em seu patrimônio e, principalmente, na memória de uma população que ajudou a construir, geração após geração, a trajetória do município.
